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23/05/2006

Deficientes visuais também querem livros. Por Gisele Pecchio na Bienal do Livro

DEFICIENTES VISUAIS QUEREM LIVROS ACESSÍVEIS
Ministério da Educação e indústria do livro já sabem que pobres querem livros. Falta saberem que pessoas com deficiência visual querem livros acessíveis. Mas se depender do domínio técnico e do interesse pelo assunto por parte de autores e editores de livros e de burocratas e empresários do livro que participaram do primeiro painel do Salão de Idéias da 19º Bienal do Livro, dia 15, esse problema parece que irá se arrastar por mais alguns anos.

Na literatura infantil os fóruns das últimas bienais não inovaram nos temas nem nos autores destacados para debater com o público. São sempre os mesmos, como o bom e veterano Ziraldo, o destaque do primeiro painel do dia 15. O público, umas 350 pessoas, a maioria professoras da rede pública, o aplaudiram e soltaram gritinhos até mesmo quando ele criticou o despreparo de parte delas e comparou o cenário montado para o debate com um “bordel francês onde as prostitutas ficam sentadas em poltronas parecidas com essas”. Ele conclamou os técnicos do Ministério da Educação a reverem as suas teorias e práticas educacionais. Disse que a criança precisa dominar a leitura e a escrita para poder refletir sobre o que aprende. Falou que estava ali “para confundir e não para explicar”. Para ele, “a escola precisa ensinar e a criança precisa aprender, sem precisar ser premiada pelo seu desempenho”.

Na infância do menino maluquinho as crianças liam Machado de Assis e aprendiam. Hoje há livros apropriados para cada etapa do aprendizado da leitura e mesmo assim as crianças não aprendem, lembrou Ziraldo. O autor disse que “é preciso abandonar palavras difíceis como “letramento” e “parâmetro” porque muitas das professoras de hoje nem sabem o que é isso. Nesse ponto Ziraldo se contradiz porque oferecer facilidades não é ensinar a pensar, muito pelo contrário, talvez seja por isso que a sua geração aprendia mais, mesmo tendo que ler na mais tenra idade autores tão complexos como Machado de Assis.

Talvez seja por isso que no país do futebol alguns locutores esportivos usem a palavra “handicap” no sentido oposto ao que realmente significa essa expressão técnica de origem inglesa muito usada no futebol. Isso só para dar um exemplo de que simplificar ou pular a dificuldade não resolve.

Talvez seja melhor mesmo Ziraldo criar textos e desenhos e ser um pouco mais cuidadoso na hora de criticar assuntos que demandam conhecimento que ele não tem, especialmente quando se tem ao lado uma educadora como Regina Zilberman. Foi pretensioso o autor ao afirmar que viajou muito mais do que qualquer um daqueles técnicos ali presentes então estava mais habilitado para falar sobre as reais necessidades da população leitora. Se viajar muito capacitasse alguém alguns políticos não falavam tanta bobagem.
Nenhum dos participantes pareceu dominar o conceito “livro acessível” ou se fez de desentendido quando perguntei aos “da poltrona” [não havia mesa, os debatedores sentaram em poltronas] qual seria a contribuição daquele Salão de Idéias na formação de leitores com deficiência visual? Quando uma criança com deficiência visual poderia, afinal, entrar numa livraria e comprar o livro da sua escolha em formato acessível? Ninguém respondeu minhas perguntas de forma convincente e pareceu-me que na visão deles livro acessível é tão somente o livro em braile distribuído pelo MEC.

Por esse motivo, reafirmo que o II Seminário Nacional do Livro Acessível deveria acontecer paralelo à 20ª Bienal do Livro com um fórum específico dentro do Salão de Idéias. É preciso articular isso desde já. Ziraldo poderia participar exercendo toda a sua influência para persuadir editores a abraçarem essa causa. Serão “pitacos” muito bem-vindos e bem mais apropriados para um jornalista e escritor tão querido e tão compromissado com a democratização da informação por meio do livro.

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