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11/06/2007

REVISTA EXAME

Por Adriano Silva

“... Paulo Francis dizia que política é coisa de gentinha. Ele tinha razão. De alguma forma, o sistema democrático não é eficiente em colocar no poder os melhores entre nós. Num bando de chimpanzés, o macho mais apto assume a posição dominante. Num time de futebol, a camisa 10 costuma ir para o melhor jogador. E assim por diante. Só na política isso não acontece. No sistema de candidaturas e de votos, por algum motivo essa regra universal de ensejo aos melhores é transfigurada no seu reverso. E assim os eleitos para gerir os interesses da comunidade acabam sendo de modo geral os mediadores, os medíocres, quando não simplesmente aquilo que produzimos de pior — os bandidos que se locupletam, os incompetentes que não deram certo noutro lugar, os delinqüentes patológicos, etc. Os melhores entre nós despontam nas artes, na iniciativa privada, nas profissões liberais, nos esportes. Mesmo os melhores políticos não estão na política: estão escrevendo teses, negociando fusões, ministrando aulas, seguindo carreiras diplomáticas ou acadêmicas. É como se os processos eletivos, por mais justos, necessários e inevitáveis que sejam, promovessem uma espécie de seleção natural ao contrário — a sociedade separa o joio do trigo e fica com o joio.
É preciso dizer que isso não acontece somente no Brasil. Repare que o presidente dos Estados Unidos não se chama Jack Welch nem Steve Jobs. Alfred P. Sloan e Roberto Goizueta também passaram longe do governo daquele país em suas épocas. E estamos falando de quatro dos maiores administradores que já andaram sobre este planeta. Os presidentes americanos, ao contrário, são e têm sido no mais das vezes sujeitos obscuros: péssimos estudantes, filhos ineptos, maus maridos, gente que não sobreviveria uma semana numa empresa de ponta ou num ambiente acadêmico de alto nível. É de assustar que, mais tarde, eleitos, eles venham a influenciar, com suas canetadas, a vida daquelas mesmas empresas e instituições de ensino de alta performance em que nem sequer teriam condições de atuar.
Talvez seja isso que a turma chama por aí de crise de representatividade. Quase sempre, ao se eleger alguém para síndico, não é o condômino mais preparado, o sujeito mais bem-sucedido do prédio, que vai para a cadeira (Este, na verdade, nem aparece nas reuniões. Porque imagina que tem mais o que fazer do que resolver problemas coletivos, do que trabalhar para os outros. Os melhores costumam focar em si próprios). Da mesma forma, os alunos mais brilhantes não freqüentam o diretório acadêmico. Estão ocupados demais competindo pelas melhores posições na turma. Idem para os órgãos de classe, que em tese representam uma categoria mas dificilmente conseguem atrair os melhores talentos para a importante posição de falar por todos os outros. Rubem Braga e Nelson Rodrigues, por exemplo, dois dos maiores talentos que já passaram pela imprensa brasileira, nunca estiveram à frente do sindicato dos jornalistas. É provável que também julgassem que tinham mais o que fazer.
Não sei bem por que é assim. Mas é assim. Os melhores entre nós escapam aos mecanismos de escolha de representantes em ambientes democráticos. Talvez no centro desse paradoxo esteja o fato de que os melhores não se candidatam, quase nunca se oferecem para consertar com as próprias mãos o que vêm de errado em sua comunidade. Não têm paciência para isso. Não têm interesse em socializar suas competências. E o quinhão de poder que a representação oferece não consegue dissuadi-los dessa posição refratária. As cadeiras no governo, no corpo legislativo, na máquina do Estado acabam sobrando, em decorrência disso, para os menos capacitados. Ou para os mais mal-intencionados. Talvez esse desinteresse que os melhores nutrem pela carreira pública seja um fator essencial para entender a tal crise de representatividade...” Trecho do artigo publicado na revista Exame, em 3 de abril de 2002, assinado pelo jornalista Adriano Silva.
Nesse artigo, o autor nos convida a refletir sobre o perigo de brincar com fogo. E mais, para o perigo de estarmos todos nos enganando. Eleição serve para alguma coisa? Democracia é de fato o pior dos regimes, excetuando os demais?

PAULO FRANCIS (1930-1997) foi correspondente da Folha de S. Paulo nos EUA. É autor de livros de ensaios políticos e culturais como Opinião Pessoal, Certezas da Dúvida, Paulo Francis Nu e Cru e Nixon contra McGovern: as duas Américas. Cabeça de Papel é o seu primeiro romance.

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