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08/06/2006

Crônica [Rumo ao Sul...parteII]

legenda de foto: Eu e papai, na USP, 1993

...Quando minha família acordou para a triste realidade já servia como mão-de-obra escrava na fazenda Santa Lina, na cidade de Quatá, região de Assis. Seo Manuel adoeceu e não tinha mais força para o trabalho pesado. Era homem da cidade, não entendia nada do campo, muito menos da maldade do homem que escraviza.
No dizer dos próprios irmãos, papai foi o mártir da família. Era o filho homem mais velho e
trabalhava de sol a sol nos cafezais. Vovó engravidou e teve a caçula Zuleide.
A família teria sido escravizada na fazenda até a morte não fosse a fuga de todos, numa madrugada. Seo Manuel teria sido morto numa emboscada, pelo capataz da fazenda, mas a carteira funcional de guarda civil o livrou da morte e garantiu a liberdade da família.
Caminharam quilômetros até chegarem na cidade, onde não invadiram terras nem pediram esmolas. Exibiram o gosto pelo trabalho e pela vontade de vencer, índole legítima do nosso povo. E as portas foram sendo abertas, pouco a pouco. Vovô abriu uma pensão, onde vovó fez sucesso com as suas receitas alagoanas de dar água na boca do promotor público, do médico e do professor da pequena cidade do oeste paulista.
Papai alfabetizou os irmãos, aprendeu a beneficiar café e arroz, nas máquinas da Carone & Filhos, e aprendeu o ofício de pintor com o alemão Jorge. Casou com a telefonista Fany e veio tentar a sorte na Capital, para onde anos mais tarde trouxe o professor Jorge para trabalhar com ele. Pintou e decorou paredes, vitrines, foi cartazista e letrista das lojas Assumpção, Isnard e Meyer Copper, no bairro de Santa Cecília, onde fui batizada.
Novas portas foram abertas para José Acioli Dias, até ele chegar em Osasco, em 1959, para onde mudou no ano seguinte. Na época, Osasco ainda era um bairro distante de São Paulo. Tempos depois, papai foi convidado pelo prefeito da cidade, Hirant Sanazar, para ser o primeiro pintor-letrista da recém fundada prefeitura municipal. Foi admitido em 7 de junho de 1962. Juntou suas economias e as da mamãe, que também era costureira, e comprou terreno do loteador Arlindo Tonato, no dizer de papai um homem honesto e de grande valor. Construiu nossa casa na então rua Particular, nº 16. Hoje rua Lanciotto Viviani, onde fomos uma das primeiras famílias a morar. Daquela época ainda há a nossa família, a de Ítalo Pestili e Clementina Ometto, minha primeira professora, no antigo Ceneart, onde ingressei com seis anos e meio.
Infelizmente papai faleceu há oito meses, e deixou muita saudade entre nós. Mas vamos prosseguir essa história. Eu, mamãe, Lourenço, Pamela e Marianna.
As últimas letras pintadas por ele foram numa placa de obra da arquiteta Marly Boghazdelikian, encomendada pelo amigo Catarino, desenhista-projetista e ex-vereador de Osasco. Também fazia retratos, com grafite. Os últimos rostos que desenhou foram o do seu médico Elias Pichara Jr., do ídolo Pelé, e do poeta popular Tiko Lee.

Acioli retratou seu médico, Elias Pichara Jr.

Gisele Pecchio Dias é jornalista e autora da Coleção Toby, a primeira no formato acessível para crianças. Especializada em comunicação empresarial, é jornalista de carreira da Prefeitura de Osasco. Foi a primeira jornalista a realizar Assessoria de Imprensa no Bradesco, onde ingressou em 1984, na então Pecplan-Fundação Bradesco.

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