02/10/2006

CRIANÇA [Desafio]


Sala de aula do IPC (São Paulo-SP),
durante palestra com Gisele Pecchio, autora da Coleção Toby.


Desafio recebe autora

Na Semana da Criança, o Centro Educacional Desafio promove palestra sobre literatura para crianças e inclusão social a ser realizada por mim, sob a coordenação da psicóloga Belanisa Mello, coordenadora de orientação educacional da escola. A palestra é ilustrada por DVD contendo informações sobre a minha missão e sobre o projeto braile, iniciado com pioneirismo, em 2003.

Os livros da Coleção Toby têm transcrição em braile, pelo Instituto de Cegos Padre Chico, e edição também em MP3, tinta e na web, pela Rede Saci, da USP. Podem ser adquiridos comigo, com envio pelos Correios para qualquer parte do Brasil. Mais informações sobre livros e palestras: gisele.jorn@uol.com.br

Um par de asas para Toby (2003) e Toby e os Mistérios da Floresta (2004) custam R$10,00 incluindo a postagem. RaYcha-uma aventura na Amazônia já saiu em braile e está sendo preparado para lançamento em 2007. A autora busca o apoio cultural de patrocinador para lançar o livro paralelo com exposição de pintura a óleo com as telas que ilustram o livro, uma homenagem aos povos da Amazônia e aos cultores da Ciência da Terra.

01/10/2006

Entrevista com Gisele, da Coleção Toby

Caminhos Alternativos
Dia: 18/11/06 (sáb.)
Hora: 15h
Local: Rádio Trianon AM 740 (SP)

Baixada Santista: Universal AM 810 (SP)

Neste sábado, às 15h., entrevista com a Gisele, da Coleção Toby, no programa Caminhos Alternativos (Rádio Trianon AM 740). É um programa de entrevistas do radialista e professor de jornalismo Luiz Deganello, doutorado pela ECA/USP, membro da Fundação Padre Anchieta, ex-diretor da Fundação Instituto Tecnológico de Osasco (Fito) onde atuou mais de 30 anos e foi um dos fundadores, tendo sido um dos idealizadores do curso de Jornalismo.
Na entrevista, ao vivo, Gisele falará sobre os caminhos percorridos por ela, com a Coleção Toby, e sobre as surpresas e revelações ao longo dessa jornada, iniciada em 2003 com Um par de asas para Toby.
Como a literatura e a pintura se encontraram em 2006 e que inspirações e influências exerceram no trabalho que apresentará ao público, em 2007.
Mario Luiz Brancia, ex-aluno do IPC, funcionário da Prefeitura de São Paulo, participa no estúdio, como convidado do programa. Ele acompanha a trajetória da autora, desde o primeiro lançamento em braile, da Coleção Toby.
Haverá sorteio de livro da Coleção Toby em tinta, braile e CD, durante o programa.

Caminhos Alternativos
Direção e Apresentação de Luiz Deganello.
Sábado, 18/11, às 15 horas
Rádio Trianon AM 740 (Capital)
Universal AM 810 (Baixada Santista)

LIVRO ACESSÍVEL (O Chefe)



Observatório da Imprensa
Entrevista Ivo Patarra, autor de O CHEFE

Lançado em 7 de setembro de 2006, o livro-blog O CHEFE, do jornalista e escritor Ivo Patarra, tem recebido a média diária de 6.500 visitas. A cada 12 ou 13 segundos uma pessoa tem feito o download da obra ou lido sobre o escândalo do mensalão, no próprio e-livro. O autor já possui leitores em 54 países, incluindo o Brasil.

Na edição de 19/9/06, do site Observatório da Imprensa, há uma entrevista feita por mim com o autor do livro O CHEFE, lançado na Internet em copyleft e formato acessível.
Convido você para ler, comentar e, se quiser, indicar essa sugestão de leitura.

O link para ler o livro é:
http://www.escandalodomensalao.com.br

O link da entrevista é:
http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=399AZL003

O link para AMAMOS LIVROS INCLUSIVOS é:
http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=3989294

30/08/2006

FEIRA [Ribeirão Preto]

Ribeirão Preto, 2004

CULTURA É ACOLHER BEM

Felizes os autores que escrevem para crianças.
Tê-las por perto é sentir a presença de Deus.
Senti a presença dele neste 19 de junho, na cidade de Ribeirão Preto, onde participei de um solitário Salão de Autógrafos numa feira do livro. Seus organizadores esqueceram o principal: saber receber é uma questão cultural e qualquer dona-de-casa mediana sabe valorizar esse quesito.

Colocar vasinho de flor na mesa e no buraco vazio reservado na estante para os livros dos autores que não vieram foi fácil. Difícil mesmo foi fazer o essencial: receber bem e com reciprocidade a única escritora presente na sessão de autógrafos, onde tantos outros confirmaram presença e se ausentaram.

Teria me sentido bem recebida e acolhida se um único exemplar do meu livro tivesse sido comprado para o acervo de livros infantis de uma única biblioteca da cidade, que se orgulha de possuir dezenas delas e repudia quando comparada com a norte-americana Califórnia.

Qualquer administrador mediano sabe valorizar o fundamento reciprocidade muito bem. Até porque, quando a cidade recebe mal os seus visitantes perde divisas. Até a água que bebi foi paga por mim. Talvez se eu bebesse uísque e me apresentasse ao público com a mesma roupa que durmo o papo seria outro. Conheço pessoas que dão palestras nesses trajes com todas as despesas pagas, até a água que o passarinho não bebe.

Viajei 330 quilômetros, com despesas pagas por mim, para participar de uma sessão de autógrafos para a qual confirmei presença, num evento que se pretende cultural, bancado por um monte de patrocinadores. Amanheci na rodoviária para ser pontual e não atrasar a programação ou prejudicar o horário reservado para outros autores. Levo a sério o meu trabalho e penso que do lado de lá o trabalho também é levado a sério.

Além do livro Um par de asas para Toby, que seria autografado, levei na bagagem exemplares do livro transcrito em braile para doação. Não apareceu pessoa alguma ligada à Educação ou à Cultura da cidade de Ribeirão Preto para conhecer-me e receber de mim um livro autografado. Sequer conheci os escritores da cidade e suas obras. E gostaria de tê-los conhecido, em especial os independentes, como eu.

Já passei por esse constrangimento outras vezes. Mas Deus sempre envia um anjo para me auxiliar nos momentos difíceis. Observei que em todos os lugares onde me apresento existe sempre uma criança que justifica a minha presença naquele lugar.

Em Ribeirão Preto apareceu o anjo Eduardo Gomes de Oliveira, de 9 anos, a única pessoa presente na Feira do Livro que entendeu a razão e o valor do meu esforço. Ele fez de tudo para que eu me sentisse recompensada e saísse de lá com uma boa imagem da cidade. Timidamente convidava as crianças para irem me conhecer.

Quando as crianças começaram a chegar para ouvir-me contar a historinha do cão Toby um barulho ensurdecedor tomou conta do lugar. Eram testes de som para um show que aconteceria no final da tarde, na frente do estande dos autógrafos.

O curto espaço de uma hora que me foi oferecido, naquela manhã, estava esgotado. Mal consegui falar com as crianças da cidade. Mas guardo delas a melhor lembrança. Crescerão vencedoras e ocuparão com dignidade as funções e os cargos públicos.

Quando esse dia chegar, estou certa que os escritores, os artistas e os cidadãos livres serão tratados com o mesmo respeito como fui tratada por elas, nos poucos minutos que nos foram concedidos ficar juntas.

Queridos alunos,

Eduardo Gomes de Oliveira,
William R. Rigoli,
Murilo Menezes Sant'Ana,
Ricardo V. P Pereira e
Guilherme C. N. Z. Ruiz:

Vocês são os responsáveis pelas boas recordações da minha primeira visita como escritora aí em Ribeirão Preto, no dia do aniversário da cidade e a cinco dias do meu aniversário.

Muito obrigada pelo interesse demonstrado pelo meu trabalho e pela visita feita para mim naquele solitário estande do Salão de Autógrafos. Infelizmente, o barulho alto proveniente dos testes de som não favoreceu a nossa conversa mas espero ter podido transmitir a vocês o essencial. Para mim, o essencial se resume na importância da amizade e na valorização do esforço pessoal para transpor as pedras do caminho.

Quero fazer um agradecimento especial ao Eduardo, uma criança com apenas 9 anos, a única pessoa da cidade que entendeu o valor do esforço feito por mim para estar presente neste dia 19 de junho, aí em Ribeirão Preto, distante 330 quilômetros da minha cidade. Crianças como você Eduardo, são anjos enviados por Deus para nos dar força e coragem nos momentos de desânimo.

Muito obrigada pelo carinho e pela atenção. Sei que você crescerá e vencerá e, quando adulto for, tratará os escritores e os artistas livres da mesma forma atenciosa e generosa como eu fui tratada por você Eduardo, e pelos seus amiguinhos.

Gostaria muito de ter autografado o meu livro para cada um de vocês. Mas ele precisa ser vendido. No entanto, o livro poderá ser lido na íntegra por vocês no site REDE SACI, que pertence à Universidade de São Paulo. Não será possível ver os desenhos feitos pelo Mecchi para ilustrar a história. Mesmo assim, espero que leiam e que depois escrevam sobre o que acharam desta primeira aventura da coleção.

Endereço de busca do Toby na Internet:
http://www.saci.org.br

15/08/2006

EVENTO

Palestra
Literatura Infantil e Inclusão: Quem é Toby?



Apresentação do projeto literário inclusivo Coleção Toby aos conselheiros municipais de educação de cinco cidades do estado de São Paulo, durante curso de formação coordenado pela Faculdade de Educação da USP.
Data/Horário: 18/8 às 11 h.
Local: EDA/FEUSP

30/07/2006

Faltam livros em braile no país


DEFICIENTES VISUAIS
Por: Gisele Pecchio Dias Fonte: Observatório da Imprensa 27/4/04

As edições de livros em braile no Brasil não são significativas. Os deficientes visuais não têm opções suficientes de autores e títulos e a solução para esse problema parece estar longe, pelo menos enquanto perdurar o desinteresse do mercado editorial.

O serviço de impressão em braile da Fundação Dorina Nowill para Cegos, o maior dos quatro fornecedores especializados nesse tipo de impressão no país – todos ligados a instituições sem fins lucrativos –, informa que imprime 9 milhões de páginas em braile por ano, entre livros, revistas, cardápios, letras de música e textos diversos. Se dividirmos essas páginas entre os cegos brasileiros, cada um ficará com apenas 0,15 página por dia.

As editoras comerciais poderiam investir nesse segmento mas não o fazem por medo de comprometer o seu lucro. Alegam que as máquinas para esse tipo de impressão são muito caras.
As escolas especializadas na educação de cegos, por sua vez, reclamam a falta de livros para atender a expressiva demanda. Os títulos infantis são raros e, até recentemente, antes da imposição da lei, as editoras se recusavam a ceder seus títulos à transcrição em braile às poucas escolas que se dedicam à educação de cegos no Brasil.

Pela primeira vez o Ministério da Educação autorizou a transcrição em braile de vários títulos, que já estão à disposição na rede de ensino público. Mesmo com esse importante investimento do governo federal, a demanda ainda não foi atendida plenamente. Visitando as bibliotecas públicas e as instituições que mantêm programas de assistência ao cego, constatei que faltam títulos, especialmente para o público infanto-juvenil. E é claro que isso prejudica o aprendizado das crianças. Além dos livros gravados em fita, elas precisam treinar a leitura, por meio do tato.

Nariz de palhaço

Ora, se há demanda reprimida o que está faltando mesmo é vontade, até nos autores que ostentam em suas biografias a vendagem de milhões de exemplares. Quantos desses já usaram o seu prestígio para influenciar a indústria do livro a olhar com mais atenção para os excluídos do sistema?

Será que tudo precisa girar em função do lucro? Não haverá espaço para ideais mais elevados nesse balcão de negócios em que se debruça a cultura nacional?

Monteiro Lobato dizia que "um país se faz com homens e livros". Podemos acrescentar que onde faltam homens com o voluntarismo e o espírito público do Lobato sobram oportunistas e mercadores, ávidos pelo lucro, inclusive no serviço público. Uma distorção de finalidade gravíssima e muito comum nos dias de hoje, onde se admite a cobrança de multa de 10% por atraso de um dia em impostos como o IPTU.

Na abertura da 18º Bienal Internacional do Livro de São Paulo, o presidente Lula teve a coragem de interpretar o texto escrito para ele, por algum marqueteiro, comparando o hábito da leitura com a corrida na esteira. Só esqueceu de lembrar que os milhões de brasileiros que o elegeram, na esperança de serem finalmente incluídos no sistema, ficaram do lado de fora da Bienal. Não pela ausência de condicionamento à leitura, mas por falta de dinheiro, mesmo. E o que dizer aos escritores alternativos, que pagam as mesmas taxas pagas pelas editoras para registrarem as suas obras na Câmara Brasileira do Livro e, na hora da festa, ficam do lado de fora, com nariz de palhaço?

Os leitores de livros em braile e para visão subnormal (aqueles impressos com letras grandes) também ficaram sem opções nessa Bienal. Se não por ideais elevados, porque reconhecemos quais são os valores que movem essa engrenagem, que é a mesma desde os tempos do Lobato, que a entrada das editoras nesse segmento seja então por uma questão de mercado.

Mais e melhor

Está na hora de botar sebo nas canelas porque vem aí uma turminha de leitores para lá de especial, ávida por experimentar a leitura pelo toque dos dedos. São crianças, muitas delas com dificuldade de aprender em braile por falta de treino. Faltam livros transcritos em braile. Faltam desenhos com relevo e texturas nesses livros. Falta amor pelo semelhante. Falta coragem para desgrudar os cotovelos desse balcão de negócios e enxergar o lado de fora, aquele onde estão o contribuinte e o escritor com nariz de palhaço.

Para redigir esse artigo, pedi números sobre a deficiência visual no Brasil ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), onde trabalham brasileiros que fazem pesquisa e estatística, em vez de utilizar indicadores de organismos internacionais. É preciso parar de valorizar somente o que vem de fora e dar credibilidade aos brasileiros, para motivá-los a trabalhar ainda mais e melhor pelo desenvolvimento do país.

Em 169.799.170 pessoas pesquisadas na amostragem do IBGE para o censo de 2000, foram registrados 16.573.937 deficientes visuais – ou seja, 9,76% da população pesquisada. Destes, 159.823 são cegos (0,96%), 2.398.471 possuem dificuldade permanente de enxergar (14,47%) e 14.015.641 têm alguma dificuldade permanente de enxergar (84,56%).

Em relação à população brasileira pesquisada, são cegos 0,09% do total, 1,41% possui grande dificuldade permanente de enxergar e 8,25% têm alguma dificuldade permanente de enxergar.

Beleza eterna

Outro caso que ilustra a pouca valorização dada aos elementos que formam a cultura nacional é o desprezo dedicado às personalidades ilustres da nossa história. O ensino do braile foi introduzido no país por um brasileiro chamado José Álvares de Azevedo, que nasceu cego e estudou pelo método braile na França. O patrono da educação de cegos no Brasil deixou poemas e livros que eu jamais pude ler e apreciaria saber onde estão. Considerado o primeiro professor cego do país, Azevedo faleceu aos 20 anos de idade, no Rio de Janeiro, em março de 1854, seis meses antes da inauguração da primeira escola de cegos – fundada por ele e que jamais teve o seu nome. Ainda hoje esta escola é conhecida como Instituto Benjamin Constant.

Betinho, como era chamado o sociólogo Herbert de Souza, outro brasileiro notável, cujo nome precisamos lembrar sempre porque ele dedicou a sua vida à ação social e à inclusão, dizia que por meio da cultura, da emoção e da inventividade podemos fazer as idéias evoluírem.

Já que não posso finalizar esse artigo com um texto de José Álvares de Azevedo, porque jamais me foi dada a possibilidade de conhecer a obra deste brasileiro a quem devemos tanto, transcrevo abaixo um poema da estudante gaúcha Isaura Gisele, hoje com 11 anos:

"Com o teu sorriso, o teu amor, o teu abraço, a tua vida. Com o teu carinho e o teu jeito especial de ser, me iluminas com uma luz que nem a mais brilhante estrela possui, porque me mostras e me ensinas o ladobelo da vida. Não preciso ver-te, pois sinto a tua alma, capto coisas que não podem ser vistas, apenas sentidas.Não vejo a tua beleza exterior, que é efêmera, mas sinto a tua beleza interior, que é eterna ..."

Opinião do Leitor

Fonte: Observatório da Imprensa Tema: FALTAM LIVROS EM BRAILE abril/04

Uma de nossas misérias

O assunto acesso à leitura continua uma das misérias que assolam este imenso e não ainda tão grandioso país. Diz um aprendiz de Jorge Luis Borges (aliás, que adquiriu cegueira), um estudioso da leitura chamado Alberto Manguel, que "uma sociedade pode existir –existem muitas, de fato – sem escrever, mas nenhuma pode existir sem ler". Acrescentaria que é pela prática da leitura que se oportuniza ao homem a criação, a construção e a reconstrução do conhecimento chegando a sua aplicabilidade ao meio social que habita.

E o ser cego ou possuidor de visão subnormal não é ser mentalmente capaz que contribui para a sociedade? Aqui, sociedade brasileira? Por que tanta restrição? E a criança, um ser em formação, a ela está sendo negada a possibilidade de conhecer e ver o mundo pelo livro e pela leitura? Lembre que cego vê, e talvez veja e sinta melhor de que as pessoas "videntes".

Políticas públicas voltadas à educação, à leitura, à acessibiliade – sim, pasmem, conheço bibliotecas com acervos em braile que ficam no terceiro andar de um prédio que não possui elevador... – ainda derrapam na mão de gestores. Associadas à timidez de um povo que pouco exerce a cidadania, fazem com que um grupo de cidadãos permança no escuro. Aliás, é a restrição de leitura que causa cegueira no ser humano, independentemente de ser ter visão ou não!

Não diferentemente, as organizações privadas do mercado livreiro não efetivam a sua contribuição. Alguém está pedindo algo gratuitamente? Não! Estamos apontando que todos têm direito à informação, a fatia do mercado está para ser explorada. Paradoxalmente, nem por "dinheiro" se produzem livros em braile! Há tipos e tipos de cegueira!

Quem leu "Ensaio sobre a cegueira", de José Saramago? Parece que esta epidemia tratada pelo autor português assola o povo brasileiro, principalmente aqueles que estão posicionados para que haja "equidade para todos." Finalizando, são artigos aqui e acolá, como este de Gisele, que espero se tornem cupim, sim, aquele bichinho que muitos consideram insignificante e que, em grupo, derruba prédios!

Que sejamos cupins destruindo a inércia que ainda impede um cego, um ser humano de ler e crescer! Parabéns à Gisele.

Salete Cecilia de Souza, bibliotecária da Unisul e membro do Grupo Cegos.Com


Pura realidade

Que artigo estupendo, magnífico! São a pura realidade os fatos retratados no artigo. Há falta de incentivo à produção de livros em braile e muita burocracia para atender aos pedidos de transcrição de livros feitos pelos deficientes visuais. Eu mesmo já enfrentei dificuldades. Ao recorrer a uma instituição, pediram-me três meses de espera somente para orçar a transcrição de um livro. Abraços de luta a todos.

Ricardo de Azevedo Soares, analista da Justiça Federal do Estado do Rio de Janeiro

Sem medo de ser feliz, amo os livros infantis

Por: Gisele Pecchio Dias Fonte: Webjornal "WMulher" www.wmulher.com.br 17/1/03

Lula chorou ao receber a carta de diplomação para exercer a Presidência da República do Brasil. Assisti as imagens do seu choro pela tevê, em casa, no último sábado, quando acabava de chegar de um workshop sobre a qualidade das emoções no ambiente de trabalho, onde eu também havia chorado.

Quando vi as lágrimas do Lula pensei nas generosas palavras da psicoterapeuta Anamaria Cohen, quando lhe perguntei porque somente eu havia chorado naquele grupo de pessoas, no momento de expressar uma tristeza.

- “Sua tristeza é muito bem-vinda, não há nada errado nela”, disse, pedindo à Ágata, sua filha e integrante do grupo, para segurar a minha mão.

Senti-me segura em demonstrar minha emoção; fui respeitada e acolhida pelas demais pessoas; no decorrer do trabalho em grupo, compreendi que por não ter a mesma aceitação da alegria, a tristeza é, algumas vezes, disfarçada. Nem sempre nos sentimos seguros para exprimi-la, com autenticidade, daí usamos o disfarce.

Minhas lágrimas, não compartilhadas, foram a expressão da tristeza. As lágrimas do Lula, compartilhadas, inclusive por mim, foram a expressão da alegria. Nada de errado nelas. São todas bem-vindas. Quem garante é a psicologia, que preconiza que saber lidar com as emoções é evitar doenças psicossomáticas.

O mundo moderno já produziu 350 milhões de deprimidos por causa do stress, alertou o consultor de empresas Flávio Freitas, parceiro de Anamaria Cohen na Cottage Consultoria, autor do Life Quality System, que tem beneficiado executivos e empresas a prevenir ou superar danos causados pelo stress.

Anamaria Cohen explicou-nos que são cinco as emoções autênticas e universais do ser biológico: a alegria, o afeto, o medo, a tristeza e a raiva. Ao longo das nossas vidas, aprendemos a disfarçar as emoções autênticas por outras como a vergonha, a timidez, a ansiedade, a irritação, a indiferença, o ódio, os ciúmes e a insegurança.

Os disfarces ocupam o lugar das emoções autênticas. Toda vez que isso acontece gera o stress, que pode nos levar à perda da capacidade de nos emocionar e de nos relacionar com os outros, caminho para a depressão e para outras doenças psicossomáticas, inclusive o câncer.

Como é inevitável continuar usando disfarces, embora aprimorando a capacidade de lidar com as emoções, encerro essa crônica ansiosa, ocultando o medo de não ser compreendida. É que na mesa, ao lado do teclado do computador, aguardam pela minha leitura os dois primeiros livros da recém lançada coleção "Erico Veríssimo para Crianças", que acabo de receber da Companhia das Letras.

“O Urso com Música na Barriga” e “A Vida do Elefante Basílio” são duas histórias contadas por um dos maiores escritores da literatura brasileira. Por meio da narrativa ágil e bem humorada, ele pretende auxiliar no desafio de expressar os próprios sentimentos, que acaba unindo dois personagens. Parece que ambos solucionam seus conflitos com o poder da imaginação e do afeto. São histórias que reforçam a importância das relações afetivas e da conquista da liberdade.

08/06/2006

Crônica [Rumo ao Sul...parte I]


escrita em agosto/2002
legenda de foto: Família Acioli, em Maceió (AL), década de 30; papai é o primeiro, à esquerda.

Rumo ao Sul Maravilha. Até quando?

Há quase sete décadas migrantes nordestinos eram trazidos a São Paulo como mão-de-obra escrava para servir nos cafezais do interior do estado, onde se misturavam com imigrantes trazidos da Itália, para o mesmo fim. A política expansionista de governos populistas iludia a população menos esclarecida, que embarcava no ITA, rumo ao Sul Maravilha, vindo ao encontro da doença, da miséria e da morte precoce.

Há 64 anos meus avôs paternos embarcaram nesse vapor. A história da minha família não é diferente de outras que continuam vindo para cá, com a mesma ilusão. Só que agora são motivadas a invadir terras particulares, até no perímetro urbano. Um sofrimento inútil. São Paulo e cidades como Osasco não suportam mais a demanda dessas correntes migratórias. Simplesmente porque não existem mais terras. E mesmo que houvessem, não há emprego e ninguém come terra.
Somos um país agrícola. É preciso plantar e colher da terra o nosso sustento. Temos 50 milhões de hectares cultivados no país e há outros 80 milhões de hectares prontos para serem cultivados, dependendo de decisões de governo.
Enquanto São Paulo e as grandes cidades deterioram devido à explosão demográfica e a falta de emprego, moradia, transporte e serviços para atender uma clientela que não pára de crescer, milhões de hectares de terra fértil estão prontos para o cultivo numa faixa compreendida entre os estados de Minas Gerais, Bahia, Goiás e outros estados do centro oeste brasileiro.
Depois da Índia, o Brasil é o país que possui o maior potencial de fronteiras agrícolas do mundo. E há empresários dispostos a investir US$ 600 milhões até o final de 2005 na ampliação dessas fronteiras agrícolas. Desses investimentos depende o incremento das nossas exportações e tudo vai depender da política governamental e do bom senso na condução das políticas públicas. É preciso dar um basta à demagogia e às ações imediatas que só contribuem para rebaixar a auto-estima e a dignidade do sofrido cidadão brasileiro.

Uma história que não acabou em tragédia. Mas poderia ...

1938. Seo Manuel, dona Ninfa Acioli Dias e os filhos Eloísa, José, Ivete, Elias, Elita, Hélio e Elza embarcam no vapor ITA rumo a São Paulo. Deixaram para trás a casa na rua do Sol, centro da bela Maceió, onde Manuel tinha um bar-restaurante, função exercida desde que deixou a Guarda de Honra do Palácio Marechal, sede do governo do estado de Alagoas. Meu avô paterno foi um dos milhões de brasileiros iludidos pela conversa fácil de políticos demagogos, que sempre agiram nessas terras.
José Acioli (meu pai), o primogênito, ficou inconformado por deixar para trás elegantes professoras, escolhidas para lecionar nas escolas públicas entre as melhores famílias alagoanas, o uniforme e os cadernos da escola técnica, que tanto o orgulhavam. Diversas vezes ele relatou-me a cerimônia de inauguração da sua escola, pelo presidente Getúlio Vargas, que buscou inspiração no modelo francês de ensino até no fardamento das crianças e no material didático,totalmente gratuitos. Papai dizia que estudava em período integral e já estava aprendendo artes e ofícios quando foi arrancado da escola por causa de uma decisão equivocada que iria mudar o destino da família. Ele já tinha a caligrafia linda que exibiu a vida toda e o gosto pelas cores e formas que o levaram a seguir, anos mais tarde, a profissão de pintor-letrista.
Vovó Ninfa deixou pra trás suas panelas e receitas finas que fazia com arte. Disseram para ela não levar louça, panelas, talheres nem mesmo roupas de cama porque aqui em São Paulo ela compraria tudo novamente, bem baratinho ...
Longos dias se passaram até o ITA atracar no porto de Santos. Ao desembarcarem, famílias nordestinas e mineiras eram transportadas, em trens, até o bairro do Brás, em São Paulo, para serem cadastradas no antigo departamento de imigração. Lá já haviam centenas de italianos aguardando pela triagem e encaminhamento para o trabalho forçado nos cafezais do interior do Estado...

Crônica [Rumo ao Sul...parteII]

legenda de foto: Eu e papai, na USP, 1993

...Quando minha família acordou para a triste realidade já servia como mão-de-obra escrava na fazenda Santa Lina, na cidade de Quatá, região de Assis. Seo Manuel adoeceu e não tinha mais força para o trabalho pesado. Era homem da cidade, não entendia nada do campo, muito menos da maldade do homem que escraviza.
No dizer dos próprios irmãos, papai foi o mártir da família. Era o filho homem mais velho e
trabalhava de sol a sol nos cafezais. Vovó engravidou e teve a caçula Zuleide.
A família teria sido escravizada na fazenda até a morte não fosse a fuga de todos, numa madrugada. Seo Manuel teria sido morto numa emboscada, pelo capataz da fazenda, mas a carteira funcional de guarda civil o livrou da morte e garantiu a liberdade da família.
Caminharam quilômetros até chegarem na cidade, onde não invadiram terras nem pediram esmolas. Exibiram o gosto pelo trabalho e pela vontade de vencer, índole legítima do nosso povo. E as portas foram sendo abertas, pouco a pouco. Vovô abriu uma pensão, onde vovó fez sucesso com as suas receitas alagoanas de dar água na boca do promotor público, do médico e do professor da pequena cidade do oeste paulista.
Papai alfabetizou os irmãos, aprendeu a beneficiar café e arroz, nas máquinas da Carone & Filhos, e aprendeu o ofício de pintor com o alemão Jorge. Casou com a telefonista Fany e veio tentar a sorte na Capital, para onde anos mais tarde trouxe o professor Jorge para trabalhar com ele. Pintou e decorou paredes, vitrines, foi cartazista e letrista das lojas Assumpção, Isnard e Meyer Copper, no bairro de Santa Cecília, onde fui batizada.
Novas portas foram abertas para José Acioli Dias, até ele chegar em Osasco, em 1959, para onde mudou no ano seguinte. Na época, Osasco ainda era um bairro distante de São Paulo. Tempos depois, papai foi convidado pelo prefeito da cidade, Hirant Sanazar, para ser o primeiro pintor-letrista da recém fundada prefeitura municipal. Foi admitido em 7 de junho de 1962. Juntou suas economias e as da mamãe, que também era costureira, e comprou terreno do loteador Arlindo Tonato, no dizer de papai um homem honesto e de grande valor. Construiu nossa casa na então rua Particular, nº 16. Hoje rua Lanciotto Viviani, onde fomos uma das primeiras famílias a morar. Daquela época ainda há a nossa família, a de Ítalo Pestili e Clementina Ometto, minha primeira professora, no antigo Ceneart, onde ingressei com seis anos e meio.
Infelizmente papai faleceu há oito meses, e deixou muita saudade entre nós. Mas vamos prosseguir essa história. Eu, mamãe, Lourenço, Pamela e Marianna.
As últimas letras pintadas por ele foram numa placa de obra da arquiteta Marly Boghazdelikian, encomendada pelo amigo Catarino, desenhista-projetista e ex-vereador de Osasco. Também fazia retratos, com grafite. Os últimos rostos que desenhou foram o do seu médico Elias Pichara Jr., do ídolo Pelé, e do poeta popular Tiko Lee.

Acioli retratou seu médico, Elias Pichara Jr.

Gisele Pecchio Dias é jornalista e autora da Coleção Toby, a primeira no formato acessível para crianças. Especializada em comunicação empresarial, é jornalista de carreira da Prefeitura de Osasco. Foi a primeira jornalista a realizar Assessoria de Imprensa no Bradesco, onde ingressou em 1984, na então Pecplan-Fundação Bradesco.